Quem viveu sabe...



QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA

Comentário:
    Carolina Maria de Jesus escreve o que vive, o que pensa, o que vê. Em aproximadamente duzentas páginas que formam o livro que tem por base o diário da autora, pode-se ver inúmeros fatos que deixam qualquer um pensativo sobre certas realidades e a pequeneza do ser humano.
    Ao retratar a vida difícil que tinha e as condições que vivia, ensina a quem está lendo questões de empatia, perseverança, responsabilidade e principalmente que é muito importante acreditar que sonhos são possíveis.
    Com um jeito próprio e com muita verdade a autora retrata como era sua rotina na favela do Canindé e toda a dificuldade que teve antes de ser descoberta por Audálio Dantas e também após isso ter acontecido, trazendo ainda mais veracidade para uma narrativa que ainda retrata a realidade de muitos em nosso país.

Enredo:
    O livro apresenta as páginas de diário da autora. É iniciado no dia 15 de julho de 1955 e encerra com o dia 1 de janeiro de 1960. Nele, Carolina, uma mulher negra, catadora de papel, favelada, faz de tudo para sustentar seus filhos e sobreviver, mas nem sempre consegue, mostrando como é dura a vida na favela e a questão da miséria, pobreza e fome, coisa que ela diz ter "cor amarela", trazendo certa sinestesia ao falar da sensação que, muitas vezes, é frequente. 
    De modo simples, ao longo dos dias retratados, percebe-se a alegria em sua narrativa de quando consegue trazer comida para casa ou satisfazer alguma necessidade de seus filhos. Além disso, mesmo com nítidos traços da oralidade, percebe-se a verdade da narrativa que não foi criada, mas vivida. Suas linhas refletem seu sonho de ser escritora e poder expressar aquilo que tanto ama.

Algumas curiosidades:
1. Quarto de despejo é o nome dado por muitos a um local em casa onde se coloca itens que constituem certa "bagunça" ao ficarem dentro de casa (ferramentas, caixas, utensílios...), mas também era uma referência a um local em apartamentos onde os moradores deixavam seu lixo para ser retirado pelo zelador em algum momento do dia.

2. Houve quem questionasse se Audálio Dantas não teria feito a obra. Em uma época presa a padrões patriarcais, na qual a questão racial era muito forte e as mulheres ainda não tinham espaço, uma mulher negra e da favela produzir tal obra não era visto como possível por alguns.

3. Carolina continuou escrevendo, mas seus outros livros não fizeram tanto sucesso como esse.

4. A obra possui vários documentários e estudos dentre eles, segue uma sugestão:

Nação | TVE - Carolina de Jesus Parte 1 - 18/09/2015

Nação | TVE - Carolina de Jesus Parte 2 - 25 /09/2015


5. A obra também foi adaptada para teatro, audiolivro e mais recentemente quadrinhos, com o livro HQ "Carolina".




6. Em 2020, foi lançada a coleção Black Power na qual são retratadas biografias de personalidades negras que marcaram época e se tornaram referência para muitos. Nela temos uma edição dedicada a autora, ao lado de nomes como Martin Luther King e Nelson Mandela.

7. Poucos sabem, mas Carolina também gravou um CD, seguindo o sucesso de seu livro. Com composições autorais ela retrata por meio da linguagem musical mais um pouco de seu talento e vivência.

Carolina Maria de Jesus - Quarto de Despejo (1961) Álbum Completo

 
8. Carolina é considerada uma das primeiras escritoras negras do Brasil.

Informações Técnicas:
Título: Quarto de despejo: diário de uma favelada
Autora: Carolina Maria de Jesus
Ano de publicação: 1960
Editora: Francisco Alves (1ª edição)
Gênero: Diário Pessoal

O que pode ser trabalhado?
Logicamente que a obra apresenta inúmeras possibilidades, mas aqui serão apresentadas temáticas para debate e participação em um fórum por vídeos. Assim, todos podem dar sua contribuição aos debates fundamentais sobre as temáticas apresentadas pela obra. Aqui seguem algumas sugestões, mas fique a vontade para contribuir caso queira.

- O reflexo da miséria e pobreza na sociedade
- A explosão demográfica nos grandes centros e as minorias
- A representatividade da mulher negra no Brasil
- As minorias sociais e a questão das raças
- Preconceitos que desconstroem uma cultura


PARA PARTICIPAR ACESSE O LINK ABAIXO:


Pra despertar a curiosidade, trechos da obra:
1956

Pág. 30

13 de maio.  Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.

                ... Nas prisões os negros eram os bodes expiatórios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos tratam com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretoos sejam mais feliz.

[...]

 

Pág. 51

3 de junho.

[...]

                ... A favela hoje está quente. Durante o dia a Leila e o seu companheiro Arnaldo brigaram. O Arnaldo é preto. Quando veio para a favela era menino. Mas que menino! Era bom, iducado, meigo, obidiente. Era o orgulho do pai e de quem lhe conhecia.

- Este vai ser um negro, sim senhor!

É que na África os negros são classificados assim:

- Negro .

- Negro turututú.

- É negro sim senhor!

                Negro é o negro mais ou menos. Negro turututú é o que não vale nada. E o negro Sim Senhor é o da alta sociedade [...]

 

Pág. 64

16 de junho.

[...]

            ... Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondiam-me:

- É pena você ser preta.

Esquecendo eles que eu adoro minha pelo negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que exite reincarnações, eu quero voltar sempre preta.

... Um dia, um branco disse-me:

- Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece sua origem.

O branco que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro tambem. A natureza não seleciona ninguém.

 

Pág. 108

11 de agosto.  ... Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa arvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode expiatorio. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata.

[...]

 

Pág. 121

14 de setembro.  ... Hoje é dia da pascoa de Moysés. O Deus dos judeus. Que libertou os judeus até hoje. O preto é perseguido porque a sua pele é da cor da noite. E o judeu porque é inteligente. Moysés quando via os judeus descalços e rotos orava pedindo a Deus para dar-lhes conforto e riquesas. É por isso que os judeus quase todos são ricos.

                Já nós os pretos não tivemos um profeta para orar por nós.

 

Pág. 122

20 de setembro. ... Fui no empório. [...] E o senhor Eduardo disse:

- Nos fatos quase que vocês empataram.

Eu disse:

- Ela é branca. Tem direito de gastar mais.

Ela disse-me:

- A cor não influi.

Então começamos a falar sobre o preconceito. Ela disse-me que nos Estados Unidos eles não querem negros na escola.

Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não pode lutar com os produtos da Natureza. Deus criou todas as raças na mesma epoca. Se criasse os negros depois dos brancos, aí os brancos podia revoltar-se.

 

1959

Pág. 167

28 de maio. ... A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.

 

Pág. 169

5 de junho.

[...]

O Euclides, o negro preto que mora com a Aparecida é horrível quando bebe. Fala por cem.

- Eu dou tiro. Eu mato!

[...]

 

22 comentários:

  1. o livro (carolina) representa muito as favelas, pois lá existem muitas pessoas de bom coração e outras pessoas que estão embreagadas e ficam xingando muitos moradores da favela. E isso vemos que a favela não é um lugar ruim, mais existem pessoas ruins

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  2. O livro Carolina foi um livro bem importante pra mim, pois eu não tinha muito conhecimento de temas sobre favelas, e graças a ele eu me interessei mais, ele retratou muito bem esse tema, por ser uma própria moradora de favela que escreveu ficou muito real, é um livro que mostra muito bem como é a vida lá, pessoas, cultura, moradias, ruas e infelizmente o julgamento de alguns.

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  3. A coisa que mais me chamou a atenção foi o jeito que ela retrata a favela. Nós nos dias de hoje apenas nos lembramos da parte da violência, e nos esquecemos de como a miséria nas favelas é gigante.
    Aluna: Luiza Silva Mainardes.

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  4. Carolina e necessária!Aborda temas de estrema relevância social e abre espaço para reflexões e empatia relatando uma triste realidade de uma mulher negra que cata lixo para sustentar sua família ,realidade a qual e vivida por muitos brasileiros

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  5. O Livro e algo que faz qualquer um que leia refletir sobre a pobreza, fome, entre outros e ele e um ótimo livro pois ele da um choque de realidade pois acredito eu que nos todos conhecemos que existe essas dificuldades mas não sabemos como realmente é então ele nos trás o mundo real as experiências de alguém que já sofreu tanto e com isso temos que agradecer que nos temos uma vida boa e não passamos fome

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  6. O livro Carolina mostra o dia dia de Carolina Maria de Jezus, mãe de três filhos, representa a realidade de muito brasileiros, mostrando a fome e pobreza que os moradores da favela do Canide passam, além disso aborda também temas como racismo e preconceito em relação a cor, local onde mora e de ser escritora e compositora, pois antes era considerado que apenas pessoas de altas classes poderiam escrever e compor, mas ela derrubou as paredes e publicou seu diário sendo um dos mais vendidos.
    Essa obra é excelente para citar em redações, sobre fome, preconceito, racismo, diferenças sociais, e vários outros diversos temas.

    Amanda Camily

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  7. O livro Carolina nos mostra a realidade de quem mora na favela, trazendo assuntos muito importantes e que precisam ser discutidos como a fome e a pobreza nas favelas. Ótimo livro para nos conscientizar como é a realidade de muitos brasileiros.
    - Maria Laura.

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  8. Ao nosso ver, a população está vivendo com condições favoráveis, porém se adentrarmos com mais objetividade nesse assunto, perceberemos a amplitude de condições de vida que há em nosso, país. Cerca de 1,5 bilhão de pessoas sofre de "pobreza multidimensional" em 91 países em desenvolvimento, ou seja, passam por privações nas áreas de saúde, educação e "padrões básicos de vida", segundo a ONU, assim, é perceptível a desigualdade que há no mundo, no qual temos pessoas vivendo em situações precárias ou relativamente confortáveis.
    Assim, perceberemos no livro tal desigualdade, que por vários é desconhecida, e á nós é revelado o quão diferente é a realidade das pessoas.

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  9. Eu li o carolina HQ uma adaptação do clássico literário brasileiro, particularmente gostei da obra pois aborda temas normalmente deixados de lado em nossos dias a dia, nele observamos relatos de alguém que reapmente passou por aquilo e não só uma imaginação de como séria,o que trouxe uma certa profundidade , sem censura ou alteração para ser felis apenas a verdade. O livro original foi publicado em 1960 uma época onde mulheres não tinham voz ou direito e vemos no final do livro que mesmo após deixar a favela ela sofreu preconceito por ter o seu tom de pele por ter cido favelada e ser mulher, a obra mostra o preconceito com as minorias

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  10. Quando eu li diário de uma favelada , achei interessante a forma que era organizado em formato de diário , de início os erros de gramática me chamaram atenção , mas logo entendi que se tratada de uma linguagem mais humilde e de outra década . O livro trata de assuntos que ainda são presentes no Brasil , como a fome e a desigualdade social . Gostei pois demonstra a realidade de muitas pessoas atualmente e nos faz refletir sobre as dificuldades vividas na favela
    Aluno:João Pedro B.G de Lima

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  11. O livro Carolina aborda muitos temas, mostra a realidade de uma favela e de muitas famílias brasileiras. Um dos assuntos do livro é a desigualdade social que infelizmente ainda existe no Brasil, O livro é muito bom pois todos os leitores refletem sobre a realidade de uma mulher negra no Brasil.
    -Lara

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  12. Carolina é um livro muito bom em que você imerge no contexto social da época, aonde a sociedade vivia em um pensamento retrogrado sobre classe social do indivíduo mas principalmente sobre sua cor. é incrível como o livro aborda a realidade de uma mulher negra que vivia neste contexto. -João Henrique

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  13. Carolina é um livro muito interessante pois se trata de um assunto muito delicado, mas mesmo assim e interessante ver como ela fez para contar de sua vida difícil por isso gostei muito! - João Vitor :D

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  14. A HQ Carolina mostra a realidade da vida de várias pessoas na favela, fala sobre vários temas que ainda são muito presentes na sociedade. Eu me encantei com o fato da Carolina ser uma mulher negra, pobre, que é mal vista pelas pessoas, que sofre tanto, que pega lixo para sobreviver, e mesmo assim ela consegue realizar o seu sonho: ser uma escritora. É uma história muito boa que várias pessoas podem se indentificar.

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  15. O livro Carolina é muito importante porque trata de muitos temas importantes como a fome,racismo,preconceito,pobreza entre outros temas muito importantes para refletir e se concientizar.
    O livro é muito gostoso de ler,cada página que eu lia me dava vontade de ler mais,eu amei.

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  16. O livro Carolina, na minha opinião é um livro excelente. Os assuntos abordados devem ser pensados e discutidos por todos, para que haja a conscientização da população sobre a situação das pessoas que moram na favela e sobre as diferenças sociais.

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