Uma maranhense...





URSULA
    
Comentário:
    Antes de Ursula, romance de temática escravocrata de Maria Firmina dos Reis, vamos falar sobre a autora. Aproximadamente 100 anos antes da publicação de "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina publicou seu primeiro romance, precursor da temática abolicionista abordado de modo distinto ao humanizar os escravos.
       A obra em questão foi o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil, sendo identificado em uma de suas primeiras páginas de "ROMANCE ORIGINAL BRASILEIRO".
        Por ter sido escrito em uma época em que as mulheres não tinham o mesmo prestígio que os homens, a autoria apresentada é "Uma maranhense", fato que elucida certo vazio sobre a autora que tem sua vida ainda sendo estudada.
        Apesar de não ser tão conhecida, permanecendo na reserva por um longo tempo, foi "resgatada" por Horácio de Almeida tempos depois o que gerou uma maior popularização de uma obra de uma autora a frente de seu tempo e que durante sua vida lutou pela questão antirracial, sendo pioneira na crítica literária antiescravista, como exposto em matéria da revista Cult

Enredo:
    Um homem branco, Tancredo, está prestes a morrer e é salvo por um escravo, Túlio. Ele o leva para suas senhoras, Ursula e sua mãe Luísa, que o auxiliam a cuidar do desconhecido. 
    Nesse processo inicial é possível perceber toda uma forma diferente ao se apresentar o homem negro e escravo, pois é alguém inteligente, com sentimentos e qualidades e tido como salvador daquele que viria a tratá-lo como um amigo. Por se passar em uma época na qual a escravidão era o contexto, Horácio de Almeida, responsável pelo "resgate da obra", diz que é um escravo de alma branca, pois é assim que o retratam. Mesmo assim, por inúmeras vezes, Túlio mostra traços do reflexo do regime escravocrata, como, por exemplo, citar que sabe seu lugar, agradecer a Deus pela bondade do homem branco, mostrando traços de possível cristianismo e ainda desejar que todos os homens se tratassem com o respeito que ele mesmo não sendo "digno" estava recebendo.
    Quem fica responsável também por cuidar do estranho é Ursula, que no processo acaba se apaixonando pelo "paciente".
    Mais tarde, após ter melhorado ambos se envolvem e Túlio vira amigo, um escudeiro de Tancredo
    Mas algo iria levar essa história a um rumo trágico... Quase que shakespeareano.

      
Curiosidades:
1 Obra anterior a Castro Alves e precursora de temática abolicionista

2 Primeiro ROMANCE (narrativa) escrito por uma mulher no Brasil

3 Primeiro romance de temática afrobrasileira.

"pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados." - Ao expor isso a autora revela sua condição de formação que não condiz com a de outros autores da época, por serem homens e com nível de instrução maior. 

5 Com atitude humilde e corajosa diz "dar lume" a uma humilde obra, que acaba sendo um marco, pois abre espaço para o que poderia vir depois.

6 Não há 100% de precisão sobre como era a autora, porque a mesma foi confundida com outra de sua época, por isso quando se pesquisa o nome dela, várias fotos/ ilustrações surgem como  possíveis resultados.



Informações técnicas:
Título: Ursula
Autora: Maria Firmina dos Reis
Ano de publicação: 1859
Editora: San'Luiz - Typographia do Progresso 
Gênero: Romance

O que pode ser trabalhado?
Logicamente que a obra apresenta inúmeras possibilidades, mas aqui serão apresentadas temáticas para debate e participação em um fórum por vídeos. Assim, todos podem dar sua contribuição aos debates fundamentais sobre as temáticas apresentadas pela obra. Aqui seguem algumas sugestões, mas fique a vontade para contribuir caso queira.

- Representatividade das mulheres na literatura
- Escravo de alma branca - problemas de conceito
- O reflexo da escravidão para a raça negra
- Cultura afro não é só escravidão
- Problemas de conceito: a "consciência humana branca"


PARA PARTICIPAR ACESSE O LINK ABAIXO:



Um pouco mais... Trechos da obra:

Pág. 13-14

[...]

                O homem que assim fallava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco annos, e que na franca expressão de sua physionomia deixava adevinhar toda a nobresa de um coração bem formado. O sangue africano refervia-lhe nas veias; o misero ligava-se á odiosa cadeia da escravidão; e embalde – disemos – se revoltava; porque se lhe erguia como barreira – o poder do forte contra o fraco!...

                Elle entento resignava-se; e se uma lagrima a desesperação lhe arrancava, escondia-a no fundo da sua miseria.

                Assim é que o triste escravo arrasta a vida de desgostos e de martyrios, sem esperança e sem gozos!

Oh! esperança! Só a tem os desgraçados no refugio que a todos offerece a sepultura!.. Gózos!.. só na eternidade os antevem eles!

Coitado do escravo! Nem o direito de arrancar do imo peito um queixume de amargurada dôr!!.....

Senhor Deos! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo -, e deixará de oprimir com tam reprehensivel injustiça ao seu simelhante !.. á aquele que é seu irmão?!

E o misero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deos lhe implantou no coração, permaneceram intactos, e puros como a sua alma. [...]

 

Pág 16

                Entretanto o pobre negro, fiel ao humilde habito do escravo, com os braços cruzados sobre o peito, descahia agora a vista para a terra, aguardando tímido uma nova interrogação.

 

Pág. 18 – 19

[...]

- Como te chamas, generoso amigo? Qual é a tua condicção?

- Eu, meo senhor – tornou-lhe o escravo, redobrando suas forças para não mostrar cançasso – chamo-me Túlio.

- Tulio! – repetiu o calleiro – e de novo interrogou:

- A tua condicção, Tulio?

                Então o pobre e generoso rapaz engolindo um suspiro magoado, respondeu com amargura, máo grado seo, mal disfarçada:

                 - A minha condicção é a de misero escravo! Meu senhor – continuou – não me chameis amigo. Calculaste já, sondastes vós a distancia que nos separa? Ah! o escravo é tão infeliz!... tão mesquinha, e rasteira é a sua sorte, que...

                - Calla-te, oh! pelo céo, calla-te, meo pobre Tulio – interrompeo – o joven cavaleiro – dia virá em que os homens reconheçam que são todos irmãos. Tulio, meo amigo, eu avalio a grandesa de dores sem lenitivo, que te borbulha na alma, compreendo tua amargura, e amaldiçoo em teu nome ao primeiro homem que escravizou a seu semelhante. [...]

                - Ah! meo senhor, - exclamou o escravo enternecido – como sois bom! Continuai, eu vol-o suplico, em nome do serviço que vos presto, e a que tanta importância quereis dar, continuai, pelo céo, a ser generoso, e compassivo para com todo aquelle que, como eu, tiver a desventura de ser vil e miserável escravo! Costumados como estamos ao rigoroso despreso dos brancos, quanto nos será doce vos encontramos no meio das dores! Se todos eles, meu senhor, se assemelhassem a vós, por certo mais suave nos seria a escravidão.

[...]

 

Pág. 27-28

- Homem generoso! unico que soubestes compreender a amargura do escravo!... Tu que não esmagaste com despreso a quem traz na fronte estampado o ferrete da infamia! Porque ao africano seu semelhante disse: - és meo! - ele curvou a fronte, e humilde , e rastejando qual herva, que se calcou os pés, o vai seguindo? Porque o que é senhor, o que é livre, tem segura em suas mãos ambas a cadeia, que lhe oprime os pulsos. Cadeia infame e rigorosa, a que chamam: - escravidão?!... E entretanto este tambem era livre, livre como o passaro, como o ar; porque no seo paiz não se é escravo. Elle escuta a nenia plangente de seu pae, escuta a canção sentida que cahe dos lábios de sua mãe, e sente como eles, que é livre; porque a rasão lh’o diz, e a alma o compreende. Oh! a mente! Isso sim ninguem pode escravisar! Nas azas do pensamento o homem remonta-se aos ardentes sertões da África, vê os areaes sem fim da patria e procura abrigar-se debaixo d’aquellas arvores sombrias do oásis, quando o sol requeima e o vento sopra quente e abrasador: vé a tamareira benéfica junto á fonte, que lhe amacia a garganta ressequida: vê a cabana onde nascera, e onde livre vivera! Desperta porem em breve d’essa doce ilusão, ou antes sonho em que se engolphára, e a realidade opressora lhe aparece – é escravo e escravo em terra estranha! Fogem-lhe os areaes ardentes, as sombras projectadas pelas arvores, o oásis no deserto, a fonte e a tamareira – foge a tranquilidade da choupana, foge a doce ilusão de um momento, como ilha movediça; porque a alma está incerrada nas prisões do corpo! Ella chama-o para a realidade, chorando, e o seo choro, só Deos compreende! Ella, não se pode dobrar, nem lhe pesam as cadeias da escravidão; porque é sempre livre, mas o corpo geme, e ella soffre, e chora; porque está ligada a elle na vida por laços estreitos e mysteriosos.