O que são as Congadas?


Vocês sabem o que são as congadas? Inclusive quando digito no corpo do texto o corretor automático do navegador rapidamente me corrige para "contadas", mostrando que não se configura como uma palavra muito usual, infelizmente. Mas e aí, vamos para as congadas? 

Para isso, utilizamos essa postagem para construir um outro imaginário possível para a Congada. Congadas são manifestações profanas religiosas que possuem seus versos em louvor sempre a algum santo católico. Elas são cantadas e encenadas por seus participantes. Seus santos são geralmente conhecidos pela igreja católica como "Santos Pretos", como, por exemplo São Benedito, Santa Efigênia, São Elesbão ou Nossa Senhora do Rosário. 

Congada, então, é uma manifestação católica que surgiu como sincretismo religioso, ou seja, uma mistura de religiões envolvendo a católica com a cultura Afro. Isso veio com os escravos africanos que chegaram ao Brasil para servir como escravos. Como eram proibidos de exercer sua religiosidade devido a uma construção pejorativa de suas culturas, eles passaram a cantar e louvar santos ocidentais, mas que remetiam a ideia de seus deuses afro. Assim,  temos o surgimento dos primeiros sincretismos religiosos. A origem dessa manifestação cultural está relacionada com às irmandades católicas, que durante a escravidão brasileira impuseram o catolicismo para os negros escravos. 
Com passar dos anos, aconteceu uma mistura dos santos que, inclusive, temporalmente se deu  próxima à abolição da escravidão, momento no qual a quantidade de negros dentro da Igreja Católica era muito significativa. Como forma de "contemplar" essa massa populacional negra, surgem os primeiros "santos pretos". 

Como de costume, essas irmandades organizavam festas em louvores aos seus súditos católicos. Assim, após autorizações locais, tanto da igreja quanto das lideranças políticas locais, os fiéis negros faziam o "cortejo" em espaços públicos, saindo pelas ruas da cidade por onde passavam, formados por uma coroação de uma corte negra, conquistando fiéis, atenção e devoção por onde passavam. 

As irmandades e confrarias religiosas eram responsáveis pela ação social dos cultos que eram feitos, pois estavam em contato direto com o público e com seus ideais bem delimitados. Então as irmandades, contavam muito com apoio dos negros, pois eles eram responsáveis pela manutenção da fé católica na colônia. 

Para liderar as irmandades religiosas eram eleitos "reis e rainhas" negras entre o público, para ser como lideranças dentro da sociedade negra. Tornando-se um cargo político e também religioso, após feita a eleição realizava-se a passeata de coroação, com festas, músicas e comida. Essas manifestações ficaram popularmente conhecidas como Congada, congado, cucumbis ou reinados de congos. 

Nessas manifestações para celebrar a coroação, os integrantes poderiam cantar e comemorar como antigamente ou como seus antepassados faziam na África. Assim eram manifestações que remetiam à uma prática ligada a Igreja Católica e que, no entanto, acontecia com festividades afro. 
Dessa maneira, a congada acaba ganhando forma individual, sendo diferentes em determinadas regiões. 

Essa diferença é garantida pela características do local de que vieram esses escravos africanos, sendo de diferentes lugares da África que trouxeram em sua bagagem a cultura local. 
Com o passar do tempo, essas comemorações passaram a ganhar maior liberdade e mais espaço pelo Brasil e acabam se tornando uma festa à parte, ou melhor, uma adoração à parte. 

É importante salientar aqui que existem diversos tipos de congadas espalhadas pelo Brasildevido a variação cultural presente que é muito grande.
No Paraná, por exemplo, é diferente da congada que acontece em Minas Gerais que é diferente da que acontece em São Paulo. Além de terem seus santos diferentes (a do Paraná é em devoção a São Benedito, a de São Paulo é a a Santa Efigênia e por ai vai) há em sua construção uma narrativa diferenciada. Algumas congadas em sua manifestação comemoram o casamento de uma rainha africana, muitas vezes relacionadas à rainha do Congo, outras acabam narrando um mal entendido entre dois reinos africanos, que acabam entrando em conflito justamente por causa desse mal entendido. Entretanto, o que é realmente belo e simbólico nas congadas são as canções, cantadas e tocadas, que remetem tanto a cultura popular africana, quanto a simbologia católica brasileira, concretizando esse sincretismo religioso. Além das canções, a congada conta com várias danças e encenações, sendo um verdadeiro atrativo para quem assiste. 

Como posso trabalhar as congadas em sala de aula ou no dia da Consciência Negra? 

Como uma manifestação cultural que surge a partir de mesclas culturais afro com as portuguesas/brasileiras, as congadas são uma importante forma de contar a história do Brasil e principalmente colocar o negro como agente formador de sua cultura e de sua própria história. 
Ao trabalhar a congada com os alunos, além de levar informações sobre uma cultura que, durante muito tempo foi marginalizada, pode-se explorar mais elementos culturais negros além das convencionais capoeira ou o samba. 
É possível comentar desde a história formadora da congada, a sociedade vigente no período e situações de superações, que apesar de proibidos de praticar sua fé religiosa, passaram a adotar formas de manter sua cultura em pé e que, apesar de se transformar em uma cultura "híbrida", possui valor cultural riquíssimo. 
Outra opção seria trabalhar sobre aspecto de mutação da cultura, porque é praticamente impossível manter uma cultura intacta durante anos, ou intacta fora de seu país de origem e deixar claro que isso não é um problema. A nova cultura que está surgindo é tão importante quanto a que já existe, entretanto são formas diferentes. Com isso, estuda-se também a identidade ao perguntar se os alunos são os mesmos de a dois, três, quatro anos atrás e, após isso, relacionar com a cultura afro, seus elementos, e quais conhecimentos possui sobre a cultura e se ela também é passiva de mudanças. 

Trabalhar a congada em sala de aula é contemplar um universo a ser explorado, sair da mesmice e ao mesmo tempo fazer com que o aluno se encante com danças, histórias, contos, músicas que  constituem a cultura afro não apenas sob a ótica e matrizes coloniais europeias. 
É mostrar que os negros também tiveram uma grande participação em nossa cultura e ainda tem! 
É contemplar que somos realmente 56% negros a formar não só a população, mas toda a identidade e cultura da nação brasileira.



REFERÊNCIAS 

FONSECA, Maria Cecilia Londres. Para além da pedra e cal: por uma concepção ampla de patrimônio cultural. IN: ABREU, Regina, CHAGAS, Mário. (orgs). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. 

LOPEZ, Luiz Roberto. História do Brasil Colonial. 2. Ed. Porto Alegre:Mercado Aberto, 1983.

FERNANDES, José Loureiro. Congadas Paranaenses. Editora UFPR, 2ª Edição. Curitiba. 2002. 

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